Para que meditação & ética secular?

Tradições espirituais não têm como salvar o mundo. Mas o cultivo universal de valores humanos como amor e compaixão pode sim nos salvar de nós mesmos.

Os temas desta newsletter/blog são valores humanos & meio ambiente. Mas devido à gravidade da situação, o atual colapso ecológico está monopolizando o espaço. Então vou trocar de assunto um pouco (apesar de esses dois temas estarem ligados intimamente).

Como comecei a ajudar num grupo de meditação, vou escrever um pouco sobre o que me motiva a fazer isso.

Dalai Lama em Dharamsala, no norte da Índia. Imagem: Tibetan Journal


Como praticante budista, sempre apreciei muito as palavras do Dalai Lama. Entre 2013 e 2015, já como monge budista, passei a maior parte do tempo em Dharamsala — onde ele também reside e dá ensinamentos frequentes — e acabei tendo mais exposição à sua mensagem.

Eu já conhecia bem sua abordagem de enfatizar a propagação de valores humanos independentemente de tradições espirituais, o que ele chama de "ética secular" — principalmente devido ao seu livro "Além da religião" (2012).

Mas nesse período em que ouvi isso repetidamente em quase todos seus pronunciamentos, e também lendo seus novos livros, realmente me convenci da genialidade dessa abordagem.


Leia a Circular em sua caixa de entrada:


O que realmente pode nos salvar

Basicamente, o Dalai Lama sempre ressalta que não quer converter ninguém ao budismo e, explicitamente, desencoraja pessoas entusiasmadas por seu carisma que estão considerando se tornar budistas.

Diz que pode ser melhor permanecer na tradição espiritual mais comum onde estamos, incluindo aí a descrença, valendo muito mais a pena reconhecer que todos temos uma bondade inata, e cultivá-la, para que floresça em cuidado com os outros, solidariedade, compaixão etc. O mundo está do jeito que está porque a maioria de nós não faz isso. Cultivamos o oposto: auto-fixação, egoísmo, competição, hostilidade... Daí, em um nível coletivo, as consequências se multiplicam de modo trágico.

Tradições espirituais não têm como salvar o mundo. Mas o cultivo universal de valores humanos como amor e compaixão pode sim nos salvar de nós mesmos. É um engano achar que isso está ligado à religião. Como muitas pessoas imaginam que cultivar uma bondade universal é uma prática espiritual, elas rejeitam essa qualidade que irradia de nossa própria natureza.

Fiquei particularmente entusiasmado com essa visão após ler "Uma força para o bem - A visão do Dalai Lama para o nosso mundo" (2015), de Daniel Goleman — ­que aliás encontrei em um retiro com Mingyur Rinpoche nos EUA e com quem pude bater um bom papo.

Isso foi um dos principais fatores para eu me envolver com o movimento Ação para Felicidade, e ajudar a trazê-lo ao Brasil, em 2015. Esse movimento é descrito em um capítulo desse livro e incorpora vários aspectos dessa abordagem aos valores humanos, com um foco em descobertas das ciências sociais e humanas.

Tergar

Depois, passei alguns anos em retiro de meditação e agora que saí não tive dúvidas sobre em qual das diversas comunidades de meditação me envolveria mais, para ajudar a propagar essa abordagem de meditação & valores seculares.

Mingyur Rinpoche foi um dos primeiros mestres budistas que encontrei, em 2006, e sempre me tocou profundamente. Ao longo dos anos, sua comunidade internacional, a Tergar, se consolidou com uma abordagem muito interessante para propagar a prática da meditação inseparável da compaixão de modo universal.

Há inclusive a prática e estudo sobre a "vacuidade", de modo secular, independente do budismo! O próprio Dalai Lama também incentiva isso, quando diz que centros budistas no Ocidente precisam se focar em ajudar a comunidade local, animais, natureza, e não em converter as pessoas. Assim, uma das maneiras que ele recomenda é disponibilizar para interessados o estudo da vacuidade, em um caminho filosófico, não religioso.

De modo bem sumário, "vacuidade" se refere ao fato de que as coisas não são o que parecem. Para nós, tudo aparenta ser muito sólido, real, separado e independente, e agimos de acordo com isso.

Mas na verdade, ao analisarmos com cuidado, é possível reconhecer que aquilo que percebemos não é tão concreto, tem uma qualidade de sonho, tudo é interconectado e interdependente — e isso não tem nada a ver com a ideia de que nada existe de fato. É mais o contrário: percebemos a interligação de todas as ações e resultados de modo muito claro e preciso, nos tornando mais cuidadosos com o que fazemos.

Conforme essa visão vai se fundindo com nossa vida, a relação com o mundo vai mudando: com menos egoísmo, mais preocupação com os outros, menos fixação, mais abertura etc.

Convite

A maioria das pessoas na comunidade Tergar, e observei isso também em outros países, se interessa mais pelo braço secular do movimento, vindo de diferentes formações e filiações. É algo bem vibrante e animador.

Em minhas práticas pessoais, estou mais acostumado ao budismo tradicional e formal, e há amplo espaço para isso também na Tergar.

Então, aproveito e convido a todos para conhecer. Há diversos grupos no Brasil e a página em português pode ser acessada aqui.

O grupo, por enquanto, online em que ajudo está aqui.


Aproveitando, não deixem de ler o recente chamado do Dalai lama para a ação em relação ao atual colapso ambiental.