Ambiente na mídia nº2

Boletim semanal sobre a emergência climática e ecológica. Basicamente, é um sumário subjetivo do que li (às vezes por cima) com um fio condutor ligando + ou - tudo

Natureza ainda é vista como produto

Boa parte, talvez a maioria, das notícias ligadas ao meio ambiente estão saindo na seção de economia.

Por exemplo, o principal gancho usado para se noticiar nosso desmatamento catastrófico é a desvantagem econômica que isso representa: perda de lucros. Assim, ainda continuamos vendo a natureza como uma matéria prima a ser explorada: investidores estão fugindo, governo precisa acalmá-los (o presidente tentou inclusive convencer o mundo de que a Amazônia está intacta!), empresários defendem economia sustentável etc.

Mas sustentável como?

Como os anúncios onipresentes na mídia pedindo para comprarmos mais carros e comermos mais carne?

Como os editoriais e artigos na mídia que pedem mais exploração e comércio de gás natural (um dos principais responsáveis pelo aquecimento global que ameaça a civilização)?

A essa altura do campeonato, defender o aumento das emissões de gases do efeito estufa tem como objetivo claro o lucro das empresas que vivem dessas emissões, já que em termos de energia, tecnologias renováveis são não apenas rentáveis como poderiam gerar milhões de empregos.

Isso demonstra que apesar de parecer que há na mídia uma preocupação com o meio ambiente (e as condições cruciais para podermos viver), na verdade a preocupação ainda é com lucro pessoal, em detrimento da destruição coletiva.

Um exemplo da miopia sobre a crise — que enxerga árvores queimando, mas não as causas — é o anúncio de um banco sobre boicote a empresas que desmatam:

‘Não vamos financiar empresas de carne que desmatarem’, diz presidente do Itaú Unibanco

Ao mesmo tempo que um levantamento aponta que os bancos em sua maioria estão desconsiderando a emergência climática.

Mas temos que admitir: essa pressão econômica por menos destruição ambiental é melhor que nada, apesar de ainda conter a mesma lógica que causa a destruição.

Pauta verde no Congresso

Outro sinal de progresso é a pauta verde que vem sendo discutida na Câmara, que conta com apoio até da bancada do agronegócio. O motivo? Lucro, claro. A pressão de investidores é o que possibilitou a viabilidade dessa agenda, que inclui até a declaração de emergência climática no Brasil.

Mas isso mostra que boicotes internacionais acabam tendo um papel eficaz para trazer as medidas regenerativas urgentes que precisamos. E, como consumidores, exercer pressão sobre as empresas pode ter um efeito positivo de fato.

Outro ponto positivo dessa pauta verde é que ajuda a desfazer a ideia de que políticas de preservação ambiental são coisa da esquerda, já que representantes da direita ruralista estão apoiando.

Nessa linha sobre economia sustentável, aqui está uma boa (e mais profunda) leitura, do Ecoa.

Petróleo verde?

Repercutiu bastante o anúncio dos cortes na produção de petróleo e gás que a gigante BP anunciou. É algo mais simbólico, já que a empresa ainda vai continuar investindo muito mais em combustíveis fósseis do que em energia renovável. Mas pelo menos dá um exemplo razoável para o setor.

Quem sabe isso não anima a Petrobrás, que se recusa em investir em energia renovável? (Estudo diz que 20 empresas respondem por um terço de toda a emissão de CO2 no mundo; Petrobras está na lista)

No entanto, empresas de petróleo investindo em energia limpa também fazem isso pelos lucros, não é uma súbita conscientização (confira, em inglês: The Real Reason BP Is Getting Greener).

Essas mesmas empresas gastam por ano US$ 200 milhões apenas com o lobby para controlar, atrasar ou bloquear políticas para lidar com a emergência climática:

Esse gráfico não vem de nenhuma conspiração de esquerda, mas da revista dos magnatas Forbes.

Pós-capitalismo

No Brasil pelo menos já há algum debate sobre uma nova economia, que não projeta um irracional crescimento infinito em cima de recursos em extinção ("crescimento econômico sustentável" não é uma contradição semântica?).

Como diz uma máxima atribuída a Albert Eintein (vi essa citação duas vezes nesta semana, nesse mesmo contexto):

"Não é possível resolver um problema com o mesmo pensamento que o criou."

Ou seja, não vamos curar nossa relação com a natureza, e a economia, se continuarmos percebendo recursos naturais apenas como uma possibilidade de lucro, e não como a fonte essencial de nossas próprias vidas.

Um estudo recente demonstrou que a ideia de um crescimento econônico verde e sustentável não tem base científica, sendo mais como um “artigo de fé” (em inglês: Green economic growth is an article of ‘faith’ devoid of scientific evidence).

O que fazer então? Já há modelos econômicos sendo colocados em prática em que o crescimento econômico não é o objetivo final, mas sim prosperarmos como seres humanos. Por exemplo, a economia donut, que está sendo adotada na Holanda.

Sobre isso, leia também a entrevista com a economista ítalo-americana Mariana Mazzucato.

Silêncio climático

Ao acompanhar a cobertura brasileira da crise ambiental, sinto-me como João Lara Mesquita descreveu no Mar Sem Fim:

"Para saber dos problemas ambientais comuns da humanidade é fácil, dos problemas locais, nem tanto."

Não são apenas dificuldades financeiras que impedem as empresas de mídia de dar o devido destaque à emergência climática. Há, claro, simples ignorância sobre o tema, junto com uma replicação desse silêncio. E há também interesses. Como diz George Monbiot, do Guardian.

"Jornais cujos donos são bilionários têm um interesse bem claro em não enfatizar o colapso do clima, porque fazer isso ofende diretamente os interesses da classe bilionária como um todo."

Não é coincidência o fato de o Guardian ser o jornal líder no planeta na cobertura da emergência ambiental. Isso porque a publicação é mantida por uma fundação filantrópica, que permite menos influência de anunciantes e da sede por lucros — por exemplo, o jornal pode se dar ao luxo de recusar anúncios de empresas de combustíveis fósseis!

Uma campanha do movimento Extinction Rebellion, pelo fim do “silêncio climático”

O problema é que esse silêncio climático é uma das causas principais da inação dos governos e corporações, e a ignorância do público, sobre a emergência em que nos encontramos, consequentemente agravando o problema.

(confira uma análise profunda desse tema, em inglês: The Media Are Complacent While the World Burns e também: What is good climate coverage?)

Se alarmar não é 'alarmismo'

Um artigo interessanate da New Republic (Climate “Realism” Is the New Climate Denial) detalha a nova tática do negacionismo climático, já que negar o inegável está ficando cada vez mais difícil.

A estratégia é rotular a preocupação com a emergência climática de "alarmismo", em oposição a uma suposta abordagem "realista" do problema (que nada mais é que a velha negação).

Nesse quesito, o governo federal se mostra super-atualizado e ágil, mantendo sempre o discurso de que ambientalistas são os "alarmistas, pregadores do fim do mundo". Ou então, de que estamos fazendo "ambientalismo ideológico" (Itamaraty reduz atuação em políticas ambientais).

Vale ler também: "Porque alarme sobre mudanças climáticas não é alarmismo", de uma fonte do setor financeiro norte-americano (em inglês).

A Catástrofe

E as más notícias se empilham:

Luz no fim do túnel


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