Ambiente na mídia #6

Boletim semanal sobre a emergência climática e ecológica.

Apenas um giro de uma dessas hélices é suficiente para gerar a energia de uma residência média nos EUA por 24 horas.


Energia renovável em alta pelo mundo

Trecho da newsletter do Bill McKibben:

Pela primeira vez, em todo mundo foi acrescentada mais energia solar e eólica do que qualquer outra energia, em 2019, segundo um novo cálculo de Brian Eckhouse, da Bloomberg.

São notícias boas, mas como ele aponta, qualquer esforço para atingirmos às metas contra as mudanças climáticas exige não apenas adicionar mais energia renovável, mas também rapidamente desativar fontes de energia baseadas em petróleo, gás e carvão. E isso não está acontecendo em lugar nenhum, na velocidade necessária.

Mas a vida dos executivos dos combustíveis fósseis continua ficando difícil: um levantamento do governo do Reino Unido revelou que a energia solar e eólica é entre 30% e 50% mais barata do que o governo estimou anteriormente.

Abri a coluna assim otimista porque eu mesmo às vezes me sinto atropelado pela avalanche de sinais cataclísmicos. Mas, infelizmente, essa boa notícia é apenas um vaga-lume nas trevas.


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Demanda por emissões continua crescendo

O fato de que apenas adicionar energia renovável não basta para lidarmos com a emergência climática foi exemplificado também por esse outro novo estudo:

Resumindo: se todo o setor energético global hoje usasse energia renovável, isso daria conta de apenas 1/3 da meta da ONU de zerarmos as emissões de gases do efeito estufa até 2050. O motivo é que a demanda por energia vai aumentar muito, considerando as estimativas de produção da indústria.

Involução

Isso novamente demonstra que sem uma evolução do atual modelo econômico, viciado em um crescimento cancerígeno, não há como haver futuro. Um argumento comum para se ilustrar a insanidade da fixação no sistema atual é o seguinte:

Ao comprar um produto como um celular, ninguém diria: "Pronto, este é o modelo final de celular. Nunca mais haverá um melhor. Vamor agora usar isso por toda a eternidade."

Não tem o menor sentido, certo? Mas é isso exatamente o que dizem sobre o modelo econônimo atual, que persegue um crescimento infinito -- mesmo com todos as fartas evidências de seu fracasso, incluindo desigualdade abismal e colapso natural.

Então por que no debate público nem mesmo se considera a possibilidade de o sistema ser alterado e aprimorado? Porque para uma minúscula — mas extremamente influente — porção de pessoas esse sistema traz lucros imensos.

Desenvolvimentismo

Como a "retomada verde" acaba sendo mais uma questão econômica, a mídia continua replicando o discurso desenvolvimentista do "dinheiro em 1º lugar". É comum escutarmos sobre "agronegócio que preserva", "explorar a Amazônia sem destruir", "expandir as fronteiras de modo sustentável" etc.

É uma conversa que pode soar bem, mas é preciso atenção com isso. Imagine por exemplo a seguinte situação:

Chegou-se no limite físico da expansão das lavouras e sua produtividade. Então os empresários falam para si mesmos: "OK, agora não tem mais para onde expandir, o restante temos que preservar, vamos nos contentar com isso." Permite-se essa mentalidade em nosso sistema?

Em uma ideologia voltada para o crescimento, por mais "sustentável" que seja, é só uma questão de tempo para que recursos naturais preservados e inexplorados passem a ser extraídos.

Outro fato que costuma ser ignorado é o seguinte: como lavoura e pasto existem em áreas de floresta desmatada, "agronegócio sustentável" não é sinônimo de "desmatamento sustentável"?

Mas a questão não é o tipo de negócio em si, mas sim:

  • Esse lucro todo realmente se reverte em benefício para a sociedade?

  • Alguém nos perguntou se gostaríamos de sacrificar a natureza para, por exemplo, poder comprar um smartphone?

Matriz brasileira limpa?

Entre quem faz esse tipo de discurso -- e não são apenas políticos e empresários, a mídia também -- é comum o uso do argumento de que como nossa matriz energética é uma das mais limpas do mundo (devido às usinas hidrelétricas), por que limitar o agronegócio, já que dá tanto lucro?

Mas uma coisa não justifica a outra: por exemplo, os dois países líderes em energia renovável justamente são os dois países que mais poluem: China e EUA.

Ter uma porcentagem alta no uso de energia renovável não dá carta branca para destruir e poluir. Fora o fato de que hidrelétricas estão muito longe de serem uma fonte de energia segura ao meio-ambiente.

Área próxima da usina hidrelétrica de Balbina, no rio Uatumã, no Amazonas. Imagem: Grupo de Pesquisa Maua/Inpa.


Luz no fim do túnel

Então já que começamos com otimismo, mais algumas "razões para acreditar":

Acordar dentro de um apocalipse de ficção científica

Viralizaram os vídeos com o céu de San Francisco, na Califórnia, cobertos pela fumaça dos maiores incêncios florestais da história, sob ondas de calor infernal, com a trilha sonora de Blade Runner.

O colapso

Uma explicação alarmante que vi no documentário “Amazônia S/A”:

No mapa do globo, as áreas terrestres acima e abaixo do equador são basicamente formadas por desertos, com exceção da área brasileira onde se encontra por exemplo Cuiabá e São Paulo. O que impede a desertificação dessas cidades é a Amazônia (junto com a Cordilheira dos Andes). Um grande deserto está em gestação no Brasil:

6ª extinção em massa

Para ler com calma

Em inglês