Ambiente na mídia #5

Boletim semanal sobre a emergência climática e ecológica.

O câncer do crescimento econômico contínuo

Parece que aumenta cada vez mais a presença do tema "recuperação verde" na mídia brasileira, referindo-se ao desenvolvimento sustentável, ou um crescimento econômico que não destroi (tanto) a natureza.

Mas nas matérias sobre como o futuro das empresas depende de um engajamento ambiental positivo, ainda predomina o silêncio sobre um aspecto essencial da possível transição para uma economia menos destrutiva: a necessidade urgente de abandonarmos fontes de energia sujas, como gasolina, gás e outros derivados de combustíveis fósseis.

Não apenas ignora, mas há até desinformação explícita em notícias sobre expansão na exploração de gás ou petróleo, que não mencionam as consequências desastrosas para o meio ambiente. Por exemplo:

A mídia também ignora o fato de que o foco em continuar sempre crescendo economicamente -- ao mesmo tempo em que os recursos naturais continuam sempre diminuindo -- é a causa de nosso colapso ambiental, cada vez mais evidente.

É a velha história do PIB isso, PIB aquilo... E imagina-se que apenas reciclar e usar energia de modo mais eficiente, por exemplo, bastaria para continuarmos crescendo de modo indefinido (ou infinito -- algo simplesmente irracional).

Como se chama aquilo na natureza que cresce indefinidamente?

Câncer. E nesse caso não é apenas uma metáfora.


Leia a Circular em sua caixa de entrada:


Quem se beneficia?

Um trecho de um ótimo novo livro sobre como seria uma nova economia, focada em desenvolvimento humano em vez de econômico:

"Considere isso: nos últimos 40 anos, 28% de todo crescimento do PIB global foi para o 1% mais rico (todos já milionários). Isso é espantoso, se pararmos para pensar. Significa que quase um terço de todo trabalho que prestamos, de todos recursos que extraímos e de todo CO2 que emitimos no último meio século foi realizado para deixar pessoas ricas mais ricas."

Jason Hickel, "Less is More"

Para saber mais sobre o "mito do crescimento verde", leia:

Lentas mudanças de hábitos

Uma cena razoavelmente comum em meio aos desastres climáticos norte-americanos ilustra bem a impotência de meras mudanças de hábitos -- apesar de essenciais no nível individual -- diante do desastre que está se abatendo sobre nós:

Na cidade de Nova York, um centro comunitário era referência em suas práticas sustentáveis: havia horta orgânica, reciclagem exemplar, consumo consciente, uso eficiente de energia... Quando o furacão Sandy, em 2012, destruiu parte da cidade, o centro foi completamente arrasado, deixando seus membros sem saber o que pensar, afinal não estavam fazendo tudo certo?

O dia seguinte do furacão Sandy em Nova York. Imagem: Keith Bedford/Reuters


Histórias semelhantes também surgiram durante os incêndios sem precedentes na Califórnia.

Mudanças como agroecologia ou uso de materiais menos poluentes são ótimas, mas no curto espaço de tempo que temos para reduzir drasticamente as emissões de CO2 (cortar pela metade até 2030, zerar em 2050, segundo a ONU) para evitar catástrofes mais graves, simples mudanças de hábitos na economia não serão suficientes.

Financiamento para desmatar

Um levantamento nessa semana mostrou como é a ligação direta entre os bancos e o desmatamento:

Colapso ecológico continua

Pior do que imaginávamos

Confira também

Essa eu não sabia: é possível produzir leite de modo artifical!

Se for algo realmente eficiente e seguro, essa tecnologia será uma ajuda e tanto, já que a indústria de laticínios (e nosso consumo, que a sustenta) é uma das principais causas da emergência em que nos encontramos.

Mais do Ecoa:

Para desviar a atenção sobre o consumo dos ricos, culpe a procriação dos pobres

Entenda porque culpar exclusivamente a superpopulação pelo colapso ambiental -- como faz o último filme do Michael Moore, "Planeta dos Humanos" (se puder, passe longe) -- é o argumento da extrema-direita racista:

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